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Subaru encerra a venda de carros novos no Brasil.

Última loja fechou as portas em São Paulo; clientes da marca seguem com suporte em oficinas parceiras, mas não há previsão de novos modelos no país

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Quem passou pela concessionária Subaru em um bairro nobre de São Paulo nos últimos dias encontrou algo incomum: portas fechadas, silêncio e nenhum carro novo no salão. Não foi reforma, nem feriado. Foi o fim. A Subaru encerrou oficialmente a venda de veículos novos no Brasil, e a última loja do país simplesmente baixou as grades, deixando para trás apenas a oficina que divide o mesmo endereço.

A saída não foi barulhenta. Não houve comunicado oficial, nenhuma campanha de despedida. A marca japonesa, conhecida mundialmente pelos motores boxer, pela tração simétrica integral AWD e pela fidelidade quase religiosa de seus proprietários, simplesmente deixou de existir como opção no mercado de carros novos brasileiro. E quem acompanhou o desenrolar da história sabe que os sinais estavam claros há bastante tempo.

O último capítulo começou em 2023

O Subaru Forester de quinta geração foi o derradeiro produto da marca no Brasil. Importado diretamente do Japão, o SUV chegou como modelo ano/modelo 2023 e ficou estocado no pátio da unidade da Caoa em Anápolis (GO), importadora responsável pela operação da Subaru no país. De lá, os exemplares foram transferidos aos poucos para a concessionária paulistana — a única em operação, junto à loja de Brasília, que também consta no site oficial da marca.

Em meados de 2025, as últimas unidades ainda estavam disponíveis. O preço anunciado era de R$ 253.900, mas na prática o Forester era oferecido por volta de R$ 219.900 a compradores interessados. Na época, um vendedor chegou a afirmar que o estoque seria suficiente “até o fim do ano”. A previsão se confirmou com exatidão quase cirúrgica.

O Forester que ficou para a história

Tecnicamente, o Subaru Forester 2023 é um SUV que carrega a essência da marca sem qualquer concessão. O coração do carro é o tradicional motor 2.0 boxer a gasolina, configuração que a Subaru mantém há décadas e que diferencia a marca de praticamente todos os seus concorrentes. Nessa última versão vendida no Brasil, o propulsor entrega 150 cv e 20 kgfm de torque, números competitivos para o segmento.

O “pulo do gato” técnico, e que muita gente não percebe de cara, está no sistema híbrido leve acoplado a esse motor. Um propulsor elétrico auxiliar de 16,7 cv e 6,7 kgfm trabalha em conjunto com o motor a combustão, mas sem oferecer modo de condução exclusivamente elétrico. Na prática, isso significa que o elétrico age como um assistente de torque em baixa rotação, suavizando as retomadas e reduzindo o consumo em situações urbanas, sem transformar o Forester em um híbrido convencional.

O câmbio CVT com sete marchas simuladas faz a intermediação entre motor e rodas, e a tração integral simétrica AWD — marca registrada da Subaru — garante que o torque seja distribuído de forma eficiente entre os quatro pneus. Quem já dirigiu um Subaru com esse sistema sabe que a estabilidade em curvas molhadas e em terrenos irregulares é um diferencial real, não apenas propaganda.

O interior do Forester seguia o padrão funcional da marca: materiais de qualidade aceitável para a faixa de preço, mas sem excessos de luxo. O couro do volante tem acabamento esportivo, a central multimídia respondia bem ao toque e os controles ficavam ao alcance natural das mãos. Um carro honesto, sem firulas — exatamente o que o público fiel da Subaru espera.

O obstáculo que a matriz não quis superar

A questão central que levou ao fim da Subaru no Brasil tem nome e número: Proconve L8. As normas mais rígidas de emissões de poluentes entraram em vigor no país em janeiro de 2025, exigindo atualização nos sistemas de motorização de todos os veículos comercializados. Para se adequar, as montadoras precisaram investir em novos propulsores ou adaptar os existentes.

A Subaru, com foco estratégico em mercados prioritários como Austrália, Estados Unidos e Japão, simplesmente não viu justificativa econômica para homologar seus motores às normas brasileiras. O volume de vendas no país — historicamente pequeno, voltado a um nicho específico — não gerava retorno suficiente para justificar o investimento.

O resultado prático foi que o Forester teve seus últimos exemplares emplacados e licenciados em nome da própria Caoa até março de 2025, prazo-limite antes da entrada em vigor plena do L8. Quem comprou esses carros, tecnicamente, adquiriu um seminovo — um veículo que já saiu da fábrica com anos de calendário, emplacado pelo importador para poder ser comercializado dentro da legalidade.

A Caoa tentou, mas a matriz não abriu o jogo

Os dirigentes da Caoa foram transparentes sobre a situação em entrevista concedida no fim de 2024. Os presidentes da empresa afirmaram que ainda mantinham conversas com a matriz japonesa em busca de uma solução, mas reconheceram a dificuldade de trazer modelos novos — incluindo versões elétricas — justamente pelo foco da Subaru em outros mercados.

A nota oficial enviada pela Subaru Brasil na época dizia que a marca “aguarda diretrizes estratégicas da matriz no Japão sobre os próximos modelos que estarão disponíveis no país, em conformidade com as novas normas de emissões PROCONVE L8.” Uma resposta diplomática que, lida com atenção, já sinalizava o desfecho.

A Caoa não retornou aos contatos mais recentes sobre o fechamento definitivo da loja.

O que resta para quem tem um Subaru

Para os proprietários de Subaru no Brasil — e eles existem aos milhares, muitos com fidelidade invejável à marca — a situação exige atenção. O site oficial da Subaru no país ainda exibe uma rede de locais para revisões e manutenções, composta por concessionárias de outras marcas representadas pela Caoa e por oficinas independentes parceiras.

O ponto é que a assistência técnica especializada tende a ficar mais escassa com o tempo. Peças de reposição, especialmente para o sistema boxer e para o AWD simétrico, podem se tornar mais difíceis e caras de encontrar nos próximos anos. Quem tem um Subaru em bom estado e pensa em vendê-lo deve considerar esse cenário no cálculo.

Um nicho que o Brasil nunca abraçou de vez

A trajetória da Subaru no Brasil sempre foi a de uma marca de nicho. Apaixonada, com seguidores dedicados, mas nunca de volume. O apelo técnico dos motores boxer, da tração integral simétrica e da robustez dos modelos como o Outback e o Impreza conquistou motoristas exigentes — mas nunca chegou a disputar o mercado de massa.

O custo de importação elevado, a concorrência acirrada de SUVs nacionais e a falta de um portfólio amplo sempre limitaram a penetração da marca. Enquanto rivais como Toyota, Honda e Jeep consolidaram redes nacionais e volumes expressivos, a Subaru nunca conseguiu — ou nunca priorizou — dar o salto necessário.

O mesmo dilema que enfrenta, por caminhos diferentes, a Suzuki com o e-Vitara: trazer um elétrico para o Brasil exige investimento em homologação, rede e suporte que nem sempre encontra respaldo na estratégia global da montadora.

O Subaru Forester 2023 foi, no fim das contas, uma despedida discreta para uma marca que merecia mais. As portas fecharam sem cerimônia, mas para quem entende de carro — e sabe o que representa um boxer de quatro cilindros horizontalmente opostos a plena rotação — a ausência vai ser sentida.

Fonte: Autoesporte | Foto: Reprodução /Google Maps