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Chery KP31: a primeira picape híbrida plug-in a diesel do mundo chega para mudar as regras do jogo
Com motor 2.5 turbodiesel, capacidade para 1 tonelada de carga e tecnologia PHEV inédita no segmento, a picape média da Chery mira mercados exigentes e abre um novo capítulo na eletrificação de utilitários
Imagine uma picape que bebe diesel, tem motor elétrico no conjunto e ainda promete 10% a menos de consumo de combustível em relação aos rivais convencionais. Parece ambicioso demais? A Chery acha que não — e está prestes a provar isso na Austrália ainda este ano.
A fabricante chinesa confirmou o lançamento da Chery KP31, identificada internamente por esse código e já apresentada ao público chinês com o nome Rely P3X. O modelo entra para a história como a primeira picape média do mundo com sistema híbrido plug-in movido a diesel — uma combinação que, até então, ninguém havia levado para esse segmento de forma comercial.
O ponto é que essa não é apenas uma novidade técnica curiosa. É uma mudança de rota real na forma como as montadoras pensam a eletrificação de utilitários de trabalho.
Uma picape feita para quem trabalha de verdade
Antes de falar sobre o sistema híbrido, é preciso entender o perfil da KP31. Com 5,61 metros de comprimento, cabine dupla e visual que não esconde para que serve, a picape foi projetada para uso severo. As linhas são retas, os para-choques volumosos, os pneus todo-terreno e os faróis circulares completam uma composição que remete aos utilitários robustos que dominaram o mercado por décadas.

Não há tentativa de disfarçar o caráter de trabalho com design arrojado. A proposta estética é direta: esta picape foi feita para carregar, rebocar e sobreviver a terrenos ruins.
Em capacidade de carga útil, a meta declarada é de 1.000 kg — número que coloca a KP31 em pé de igualdade com as líderes do segmento, como Toyota Hilux e Mitsubishi L200 Triton, que trabalham com números parecidos sem qualquer eletrificação. Para reboque, a Chery aponta até 3.500 kg, referência que, somada ao sistema PHEV, torna o argumento comercial ainda mais sólido para frotas e agronegócio.
O trem de força que ninguém havia feito antes
O motor 2.5 turbodiesel é o coração do sistema. A Chery afirma que esse propulsor alcança eficiência térmica de 47% — número expressivo para um motor a combustão de uso geral, considerando que a maioria dos motores a diesel convencionais opera entre 40% e 45% nesse indicador.
O que chama atenção mesmo é a escolha pelo diesel como base do sistema híbrido plug-in. A lógica faz sentido quando se pensa no perfil do usuário: quem percorre longas distâncias no campo, em regiões onde postos de gasolina são escassos mas postos de diesel existem por necessidade logística, encontra no diesel PHEV uma equação mais prática do que qualquer alternativa a gasolina ou puramente elétrica.
Na prática, isso significa que o motor elétrico entra para complementar o conjunto nos momentos de maior demanda de torque — arrancadas, trechos off-road e manobras com carga — enquanto o diesel assume o protagonismo nas rodovias, onde a eficiência térmica do motor é maior. O resultado declarado é redução de 10% no consumo de combustível em comparação com versões exclusivamente térmicas de porte equivalente.

O sistema elétrico ainda não teve seus detalhes completos revelados pela fabricante, mas a arquitetura mantém tração 4×4 convencional, com o pacote de baterias posicionado na parte traseira do chassi de longarinas — solução que preserva a integridade estrutural da carroceria e não compromete a área de carga.
Outro dado interessante divulgado pela Chery: a redução de 30% nas vibrações típicas de motores a diesel. Quem já passou horas ao volante de uma picape turbodiesel sabe que o tremor característico do motor em marcha lenta é um dos pontos de atrito com o conforto de uso urbano. O sistema elétrico ameniza esse comportamento, funcionando como um amortecedor de vibrações mecânicas — o que torna a KP31 mais agradável no trânsito da cidade sem abrir mão do desempenho pesado no campo.
Austrália primeiro, mas o olho está no mundo
A escolha da Austrália como mercado de estreia não é aleatória. O país tem uma das maiores densidades per capita de picapes do mundo, com modelos como Toyota HiLux e Ford Ranger dominando as listas de emplacamentos há anos. É um mercado exigente, com uso real e severo, onde uma picape precisa provar que funciona antes de qualquer argumento tecnológico ser levado a sério.
Lançar a KP31 nesse contexto é, portanto, uma declaração de intenções. A Chery não está posicionando essa picape como um produto de nicho para entusiastas de tecnologia — está tentando competir de frente com os líderes do segmento mais disputado do mundo.
A KP31 também revela uma estratégia maior. A marca planeja estruturar uma família global de picapes eletrificadas, incluindo versões totalmente elétricas e híbridas a gasolina para os próximos anos. A KP31 seria, nesse contexto, o modelo mais robusto da linha, voltado para mercados onde o diesel ainda é referência de eficiência e autonomia.
O Brasil está de olho
Para o mercado brasileiro, o movimento merece atenção redobrada. A CAOA Chery já sinalizou interesse no segmento de picapes: no Salão do Automóvel de 2025, a empresa exibiu a Himla, um estudo de mercado com visual de picape média, justamente para medir o interesse do público local.

Com a KP31 se tornando realidade, a plataforma diesel PHEV surge como uma evolução natural para a Himla — e com apelo comercial potencialmente mais forte do que qualquer versão puramente elétrica teria no Brasil atual.
O mercado brasileiro de picapes é dominado por usuários do agronegócio, da construção civil e de frotas corporativas. São perfis que valorizam a autonomia elevada, a robustez mecânica e a capacidade de carga, mas que começam a ser pressionados por custos operacionais crescentes com combustível. O diesel PHEV poderia ser exatamente o argumento que falta para convencer esse público a dar um passo em direção à eletrificação sem abrir mão da segurança operacional que o diesel oferece.
O campo de batalha está se formando
A KP31 não chegaria a um mercado vazio. A BYD Shark, picape híbrida plug-in a gasolina que já atrai atenção no Brasil, seria a rival mais direta em termos de conceito. Entretanto, a diferença de propulsão é relevante: a Shark usa motor térmico a gasolina, enquanto a KP31 aposta no diesel — e para o perfil de uso pesado brasileiro, essa distinção pode fazer toda a diferença na decisão de compra.
Há ainda a Ford Ranger híbrida plug-in, prevista para chegar ao Brasil em 2027 com motor flex como base do sistema motriz, aproveitando a infraestrutura de etanol já consolidada no país. Essa abordagem permite ganhos ambientais mais expressivos no contexto nacional, mas a Ranger PHEV ainda é uma promessa distante para quem precisa de uma solução agora.
O ponto é que o segmento de picapes médias eletrificadas está deixando de ser terreno de especulação e se tornando um campo real de disputa entre montadoras. A KP31, com seu sistema diesel PHEV inédito, representa uma abordagem técnica que nenhum rival havia explorado antes — e isso, por si só, já justifica acompanhar de perto o que a Chery está construindo.
Se a tecnologia se provar confiável em termos de custo, durabilidade e robustez em condições severas de uso, a combinação entre eletrificação e diesel pode se tornar o novo padrão para picapes de trabalho nos próximos anos. E a Chery, com a KP31, chegou primeiro.